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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sociedade Peruana de Cardiologia

Leslie Aloan, Presidente do INASE
Dia 5 de setembro estaremos recebendo o Dr. Juan Vlasica, Presidente da Sociedade de Cardiologia do Peru. Portanto, esses laços com o país irmão se estreitam e, por isso, apresentamos aqui uma breve história da criação da Sociedade Peruana de Cardiologia.
De acordo com Carlos Rubio W., Presidente Honorário da Sociedade Peruana de Cardiología, a  base da educação da Faculdade de Medicina da Universidade de San Marcos, em Lima, até a Segunda Grande Guerra, era orientada com as diretrizes da escola médica francesa. Com o correr do tempo, surgiram o estetoscópio e o aparelho para aferir a pressão arterial. A fluoroscopia, o raios-X do tórax em três posições, o electrocardiograma, avançavam e facilitavam o estudo do coração.
Em 1943, Matthias Ferradas, trabalhando na sala 4, recém-chegado dos Estados Unidos, tinha recebido treinamento de cardiologia com Paul D. White, fundador da escola Cardiologia e Thomas Lewis, que por sua vez foi aluno e colaborador de Eithoven no início do século XX. Matías Ferradas trouxe para o Peru em 1942, o ECG .
Em 1946, ao lado de um grande número de cardiologistas, Rafael Alzamora, Aurelio Vasquez Mispireta Augusto G., Pedro Moyano, Pedro Roggero, Guibovich Carlos Perez, Roberto Valenzuela Delgado, Carlos Ruiz Estrada, Guido Cornejo, Guillermo Coll, Pedro Rodríguez Mejía e Marcos Roitman, depois de um treinamento nos Estados Unidos voltou a Lima para se juntar à Sala San Jose.
Victor Alzamora Castro fundou em 1944 o ambulatório de cardiologia, precedendo a fundação da Sociedade Peruana de Cardiologia.
Em 1947, o  Congresso Intercardiológico ocorreu em Havana. O cardiologista Andrés Rotta solicitou o ingresso do Peru, que foi negado pela organização do evento. Retorna ao Peru e com Rafael Alzamora e com diversos grupos, decidiram fundar a Sociedade Peruana de Cardiologia.
Após reuniões preparatórias nas instalações da Academia Nacional de Medicina, em 12 de março de 1947 foi assinado o "Ato de Fundação da Sociedade Peruana de Cardiologia", sendo declarados membros fundadores 22 profissionais médicos que assinaram a ata. Eles produziram a eleição do Conselho de Administração. Rafael Alzamora como presidente e Andrés Rotta como vice-presidente, que organizou e canalizou a atividade científica cardiológica para a criação do Instituto Peruano de Cardiologia.
Hoje, Juan Vlasica preside a Sociedade durante o biênio 2014-2015, e é nosso convidado para proferir a Palestra “Acompanhamento por cinco anos da Hipertensão Arterial, Diabetes e Dislipidemias no Peru, em cidades da costa, selva e montanhas”, próximo dia 6 de setembro, no Auditório do INASE.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A arte da Medicina ou a Medicina baseada em evidências?

Leslie Aloan, Presidente do INASE

A história da Medicina relata a existência de médicos no Egito, como Imphotep, médico e arquiteto do Rei Zozer que teria vivido em torno de 2.600 a.C., e após a sua morte foi considerado o Deus da Cura.
Estes conhecimentos foram obtidos de papiros que datam principalmente de 1.900 a 1.500 a.C. demonstrando que estes  médicos, por não possuírem o conhecimento das patologias, atribuíam-nas a seres espirituais e o tratamento era feito com o emprego de poções mágicas para afugentar estas entidades. O Deus Bes era o ente solicitado nestas curas. No entanto, o conhecimento avançava como fruto da educação e observação, registrados no famoso papiro Ebers, escrito por volta de 1.500 a.C., e  descoberto em Tebas em 1870. Representa o mais antigo compêndio médico conhecido do Egito, provavelmente da Humanidade.
A palavra medicina vem do latim, ars medicina, que significa arte de curar. No entanto, a definição de arte, desaparece nos grandes dicionários. Houaiss define ”considerada por alguns uma técnica e, por outros, uma ciência”. O Dicionário Oxford da Língua Inglesa define “ciência ou prática do diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças”.
No III Milênio, estará a Medicina como arte realmente ultrapassada? Sucumbiu a tecnologia? Se tornou simplesmente uma coleção de conhecimentos e habilidades de ordem técnica?
Para interpretar estas perguntas e tentar elucidar uma resposta, entendemos que toda arte, não importa em qual dimensão, ou em que tempo, envolve: maestria, individualidade, humanidade.
Maestria envolve mais do que experiência, conhecimento. Maestria representa mais perícia, sabedoria, discernimento. Maestria envolve, ainda, humildade para ouvir, aprender, estudar, questionar e mudar de opinião. Significa erudição, sabedoria, saber, destreza, habilidade, mestria, perfeição, perícia, aptidão, qualificação. Ser mestre na ampla acepção da palavra.
A individualidade e a humanidade, só se entende caminhando juntas, focando com a responsabilidade de alguém que não só decide, mas aplica a maestria, com sentimentos que não aprendeu na Escola Médica. A arte depende dele, de compreender o indivíduo em toda a sua dimensão. Isso não se aprende nos bancos acadêmicos. É intrínseco. É arte.
É uma arte ter a capacidade de extrair a informação mais relevante dentro de um emaranhado de sinais, sintomas e resultados de exames complementares para decisões em relação ao tratamento, levando em consideração a realidade individual de cada paciente.
Isto ultrapassa o conhecimento da Ciência Médica, que fazem parte da rotina de um médico. Desde 1980, quando aconteceu o primeiro estudo cooperativo, e abria o Capítulo da “Medicina baseada em evidências”, que subjugou por décadas a “Medicina baseada em experiências e na arte de tratar”.
Portanto, a combinação de conhecimento, intuição, sensibilidade, compreensão e capacidade de decisão, que define a Arte da Medicina e é tão ou mais importante que uma forte base científica.
Isto se exemplifica pela proporção de médicos envolvidos com a arte.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

INASE inicia projetos na prevenção de drogas ilícitas

Leslie Aloan, Presidente do INASE

O Instituto Nacional de Assistência à Saúde e à Educação deu mais um passo em sua caminhada em julho passado e ultrapassou as nossas fronteiras. Mais exatamente, a fronteira com o país irmão, o Peru. Tratou esta semana de ações conjuntas Brasil-Peru, no combate e na prevenção de drogas, com as autoridades peruanas.
Este esforço vem sendo perseguido desde 1999, conforme o decreto nº 4.437, de 24 de outubro de 2002, que promulga o Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Peru sobre Cooperação em Matéria de Prevenção do Consumo, Reabilitação, Controle da Produção e do Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas e seus Delitos Conexos, celebrado em Lima, em 28 de setembro de 1999.  A matéria evoluiu com outras tentativas legais e militares.
Em abril deste ano, o Brasil e o Peru fortaleceram os controles policiais em sua extensa fronteira de 2.800 km para combater o intenso tráfico de drogas e de insumos químicos do narcotráfico, informou neste mês a agência antidroga peruana, a Devida (Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas). Houve um intenso patrulhamento no rio Yavarí, na fronteira com o Amazonas e o Acre. Além de reforçar as patrulhas na fronteira, aumentaram o intercâmbio de informação de inteligência, no controle da fronteira binacional.
Os narcotraficantes que operam entre o Peru e o Brasil têm principalmente conexões com cartéis mexicanos e colombianos, além das máfias italiana, russa, chinesa e nigeriana. Segundo a agência antidrogas da ONU, o Peru é atualmente o maior produtor da folha de coca e cocaína do mundo. Grande parte da cocaína peruana vai, via Bolívia, para o Brasil e daí para a Europa e a Ásia, onde os preços da droga se multiplicam.
As operações militares serão uma forte e indispensável resistência ao ingresso das drogas no mundo civilizado. Mas os programas de prevenção serão fundamentais, essenciais  e indispensáveis para aqueles que ainda não foram contaminados com esse mal.
Em experiência anterior, o INASE promoveu uma campanha de prevenção do consumo de drogas, com o uso de atividades lúdicas. Trata-se de jogos com temática e foco nas drogas ilícitas, que cativava  e envolvia  não somente as crianças, mas também os pais e toda a família. Um jogo atrativo para entreter e educar toda a família. Uma experiência exitosa.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Uma rápida história da Cardiologia Intervencionista

Leslie Aloan, Presidente do INASE

Em 2005, por ocasião das comemorações dos 50 anos da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (SOCERJ ), o autor foi convidado a escrever o Editorial comemorativo “Considerações Históricas sobre a Cardiologia no Estado do Rio de Janeiro. Historical Considerations on Cardiology in Rio de Janeiro State”, onde apresentou os principais marcos da evolução da especialidade. Para marcar o Dia do Cardiologista, no próximo dia 14, partilhamos com os leitores, especialmente com os cardiologistas.
 Evolução da Medicina.   Grandes Marcos da Cardiologia
10 de julho de 1893: Daniel Hale Williams, operou com sucesso no Hospital Provident de Chicago um paciente de 24 anos esfaqueado no coração. 
1905: Fritz Bleichroeder introduz cateteres em suas próprias veias até perto do coração
1929: Werner Forssmann atinge a AD com estes cateteres e tem o crédito do primeiro cateterismo cardíaco no mundo.
1959: Mason Sones inicia a coronariografia, em Cleveland.
1967: André Favaloro realiza a primeira revascularização miocárdica, em Cleveland.
16 de setembro de 1977: Andreas Gruntzig realiza a primeira angioplastia no Mundo
No Mundo, em 1844, Claude Bernard cateterizou o ventrículo esquerdo e direito de cavalos, via retrógrada, utilizando a via jugular e carótida.
Foi o primeiro a realizar o cateterismo e a estabelecer a fisiologia cardíaca como é definida hoje.
Em 1905,  Freis Bleichroeder começa a história da investigação invasiva em cardiologia, quando introduziu sondas em suas próprias veias, e por isso merece o crédito de pioneiro, embora este seja atribuído ao jovem estudante de Medicina Werner Forssmann, de 25 anos, que em 1929 em Eberswalde, Alemanha, repetiu este feito, e o  registrou por radiografias de tórax a sonda atingindo a aurícula direita.  Este autor recebeu o Premio Nobel de Medicina em 1956.
Nos anos  40,  André F. Cournand  e  Dickinson Richards desenvolvem o cateterismo direito, aplicando-o rotineiramente. Em 1956, Cournand compartinha do Prêmio Nobel com Werner Forssmann.
Em 1959,  Mason Sones inicia a coronariografia seletiva na  Cleaveland Clinic e em 16 de setembro de 1977 em  Zurich, Gruntzig realiza a primeira angioplastia no mundo, inaugurando a era da Cardiologia Intervencionista.
Primeira angioplastia no mundo
            Em junho de 1979 foi realizada uma reunião histórica no NIHBL, Bethesda, com 34 Centros USA/Europa, com 631 casos apenas  realizados no Mundo, e criado o Registro de PTCA do NIHBL, publicado no  Proceedings on PTCA, March 1980. Este Registro monitorou a técnica oferecendo diretrizes.Avançam as intervenções percutâneas coronarianas, com Costantino Costantini , Curitiba, realizando o primeiro caso no Brasil, em 1979
            A angioplastia com implante de stents metálicos segue-se então:
                        1986: Primeiro stent implantado no Mundo (Sigwart, Wallstent).
                        1987: Primeiro stent no país ( Eduardo de Souza, PalmazShatz).
            Angioplastia com implante de stents farmacológicos:
                        2001: Estudo FIM (Eduardo de Souza, SP).
            As valvoplastias por procedimentos percutâneos desenvolveram-se sobremodo nos anos 80, com valvoplastia mitral e pulmonar, para as estenoses destas valvas. O Implante de valvas percutâneamente iniciou-se em 2002  com Alain Cribier  implantando  a valva Cribier-Edwards (Edwards Lifesciences Corporation, Irvine, Califórnia)  e em julho de 2006, Grube  empregou pela primeira vez em um ser humano  uma prótese valvar aórtica auto-expansível ( CoreValve ) inserida via arterial retrógrada.
            No Brasil, apenas no início dos anos 30 a Cardiologia começa a surgir como área de interesse em nosso país.  As publicações são eventuais A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), foi criada apenas em 1943, em São Paulo, iniciando  a Cardiologia como especialidade no Brasil,  com médicos fundadores ilustres como Edgard Magalhães Gomes, Alcir de Belo Campos, Pimenta Bueno, Waldemar Deccache, Luiz Feijó, Emiliano Gomes, Genival Londres, Vieira Romero e Dante Pazzanese.  As publicações regulares somente ocorrem a partir de criação dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, em 1948. A Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro é fundada em 1955. Em 1945, Horácio K. Melo publica na Revista Médica Paulista um artigo intitulado “Angiocardiografia”  Computa-se a ele o primeiro artigo da especialidade no país.
            Eduardo de Souza realiza a primeira coronariografia no país em 1966, no Instituto Dante Pazzanese. Em 2 de dezembro de 1976, em Guarujá (SP) é criado o Departamento de Hemodinâmica e Angiocardiografia da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Em 1980, Leslie Aloan et al. publicam o primeiro livro na especialidade em português - “Hemodinâmica e Angiocardiografia: Obtenção de Dados, Interpretações e Aplicações Clínicas”.
            Em 1993, em Belo Horizonte, por ocasião do XLIX Congresso da SBC, este Departamento transforma- se na Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).  Em 1996, Leslie Aloan, cria a Sociedade de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista do Estado do Rio de Janeiro (SOHCIERJ) Dos 35 membros efetivos à época, a  SOHCIERJ congrega hoje mais de 160 membros, e perto de1000 congressistas participaram do último evento em 2011.
  




quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Medicina na Pré História - Parte 2

Leslie Aloan, Presidente do INASE

Dando continuidade ao assunto da semana passada, descreveremos algumas condições específicas da Medicina pré-histórica.

A. As ervas medicinais: Os homens usam plantas medicinais há pelo menos 40 mil anos. Não há provas diretas, mas arqueólogos desconfiam que plantas do gênero Aneilema eram usadas para evitar a gravidez, enquanto a borragem provavelmente já era usada para amenizar os sintomas da tensão pré-menstrual nas mulheres e como afrodisíaco para os homens. O uso de ervas com o intuito terapêutico data de longo tempo atrás. Durante o longo aprendizado sobre as plantas comestíveis, os seres humanos na idade da pedra também identificam muitos que parecem curar doenças ou aliviar uma febre. Provavelmente a mais antiga evidência para a utilização de uma planta medicinalmente ativa é o uso da papoula do ópio, datada de 5.000-4.500 a.C.

Os restos do homem do gelo Oetzi mumificados naturalmente pelo gelo, que viveu 5.300 anos atrás, foram encontrados nos Alpes, há poucos anos atrás. Muitas teorias tentam explicar certos achados. Por exemplo: teria se alimentado fartamente pouco antes da sua morte.  Havia utilizado o fungo Piptoprus betulinus para tratar um parasita intestinal. Estes fungos contêm óleos que são tóxicos para vermes e têm propriedades antibióticas, indicando que os seres humanos antigos adotaram terapias eficazes para doenças comuns apesar de atribuírem a doença como um castigo dos Deuses e a ira dos espíritos malignos Foi morto atacado por um grupo de pelo menos três pessoas, tendo sido ferido com uma flecha nas costas.
Nos últimos anos, foram relatadas evidências que chimpanzés e outros primatas praticam a auto medicação (Sumner, 2.000). Certos vegetais tóxicos em grandes quantidades são ingeridos de forma controlada por eles para tratar parasitas intestinais e infecções diversas. Já foram observados o uso de mais de 30 tipos destes vegetais e aparentemente é um instinto inato e não aprendido por ancestrais. Outros recursos  foram observados como medicação por estes primatas como a ingestão do carvão vegetal  e da argila de kaolin, para o tratamento da diarreia.

B.  Shamanismo: Pessoas especiais, como o xamã, foram capazes de  entrar em contato com o mundo dos espíritos e buscar a sua orientação quando entraram em  transes misteriosos. Estes homens e mulheres comunicavam-se com os espíritos para trazer boa caça ou curar os enfermos e possivelmente foram os primeiros médicos. Espíritos curandeiros realizavam cerimônias e lançavam feitiços para tratar os doentes. Beber o sangue de um animal selvagem morto na caça daria aos caçadores poderes especiais. Comer plantas só conhecidas pelo xamã também era uma forma de tratamento de doenças. É possível que estes tratamentos, por vezes, teria um efeito benéfico e pensa-se que drogas como digitalis e morfina  poderiam ter sido empregadas já nesta época. Encantamento, feitiços e transes (muitas vezes provocadas por medicamentos à base de plantas) formam a prática padrão do homem de medicina ou Xamã. Uma pintura na Trois Frères, caverna na França, com cabeça de veado ou máscara foi pensada por alguns para representar o primeiro xamã ou Padre curandeiro. Outro fragmento Paleolítico mostra uma rena pisando sobre uma mulher grávida.

C. Promessas e oferendas: A oferenda de objetos ao enfermo, claramente solicitava a cura, já que eram depositados partes do corpo referentes ao local da doença.

D. Procedimentos:
1.         Trepanação: é o procedimento cirúrgico através do qual é realizado um orifício no osso do crânio, atingindo o cérebro. Exemplos deste procedimento datam do período Neolítico. A trepanação poderia ter tido um propósito mágico-médico de expulsar um demônio, como tem sido observado em alguns povos primitivos. Por outro lado, poderia ter sido um tratamento de fraturas com hemorragia intracraniana. Na verdade, a  trepanação pode ter sido empregada em momentos diferentes para todas as razões acima. Os exemplos mais antigos foram datados de 5.200-4.900 a.C. e mais recentemente foi encontrado no cemitério do Dnieper, nas corredeiras Vasilyevka II perto de Kiev, na Ucrânia outros crânios mais antigos datados de 7.300.-6.220 a.C. Em ambos os achados, os crânios observavam-se extensiva remodelação de osso e encerramento quase completo de trepanação, indicando a sobrevivência dos pacientes operados. Os dados disponíveis, analisando mais de 4.000 crânios submetidos a este procedimento encontrados na Dinamarca, Suécia e Grã Bretanha, sugerem: alto índice de sobrevida,( 80% ) já que havia regeneração do osso do crânio; a maioria eram homens ( 95% ); o método mais utilizado na sua grande maioria ( 80% ) foi o da raspagem gradual do crânio; alguns crânios mostram múltiplas trepanações ( em casos até 4 ) no decorrer de um período; a maioria era do lado esquerdo do crânio; foi muito utilizado no período neolítico, e progressivamente abandonado na idade do Bronze. Se a grande motivação foi religiosa, mística ou médica nunca saberemos. Aparentemente a grande maioria era para aliviar a pressão intracraniana elevada devido a quedas ou  lutas, explicando porque a grande maioria ocorria em homens e do lado esquerdo do crâneo. Aparentemente a convulsão era outra indicação, já que era comum à época e interpretada como ira dos Deuses.

2. Amputação: Mesmo com escassos registros, as análises arqueológicas estabelecem algumas relações concretas da ação médica na pré-história. Roberts e Manchester, em 1995, afirmaram que não existem registros de amputações na pré-história, só ocorrendo durante a IX Dinastia egípcia. Explica este fato pela dificuldade de hemostasia da hemorragia maciça decorrente do procedimento e pela crença de que o homem ao morrer deveria ser enterrado o mais perto possível da sua forma natural.  No entanto, João Bosco Botelho afirma que a ação intencional do homem sobre o homem com intenção de mudar o curso da morte data de 25.000 anos, com o achado do osso do braço de um Neanderthal submetido à amputação. A cirurgia foi bem sucedida e o homem viveu muito tempo após a intervenção cirúrgica.

3. Tratamento de fraturas: Alguns achados mostram claramente que existiu a consolidação de fraturas, que com certeza houve intervenção humana, já que consolidaram alinhadas.

4. Acupuntura: O próprio homem do gelo, de Tirol, apresentava tatuagens que inferem ser uma forma de tratamento, a acupuntura, no alívio da artrose que Oetzi era vítima.

5. Odontologia: Extrações dentárias, de fato, parecem ter sido mais amplamente praticadas nas cidades do que em áreas rurais.  Provas anteriores ainda para odontologia têm sido relatadas por Bennicke (1985). Um crânio de um túmulo do período neolítico, na Dinamarca, datado de 3.200-1.800 a.C. mostra um orifício em um dos molares superiores, aparentemente manipulado  por terceiros, com sucesso.

 
          Fica aqui um pouco que se tem notícia dos recursos e crenças da época. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Medicina na Pré História - Parte 1

Leslie Aloan, Presidente do INASE

           Este artigo descreve um cenário do que seria a arte da Medicina na Pré História. O termo pré-história foi originalmente proposto pelo historiador e cientista Britânico Daniel Wilson, em 1851, (The Archaeology and Prehistoric Annals of Scotland).  Nesta obra Wilson definia a pré-história como o período da história que não deixou documentação escrita. É arbitrariamente dividida nos períodos Paleolítico e Neolítico.
            O Paleolítico caracterizou-se pelo período entre 600.000 e 10.000 anos atrás, chamado de Período da Pedra Lascada.  Na pré-história, a população era tanto escassa como remota. Pequenos grupos de seis a trinta membros vagueavam à cata de alimentos por áreas imensas. Com a agricultura, no período neolítico, ocorre uma grande expansão demográfica em torno de 9.000 anos atrás com aumento significativo da população como de aldeias.

            A transição para o período Neolítico deu-se de forma muito gradual entre 15 e 10.000 anos atrás. No final do Neolítico, as espécies abandonaram a pedra polida e passaram a utilizar os metais, principalmente o cobre, caracterizando este período (5000- 4000 anos) como a idade dos Metais. Aparece a escrita.  Estava começando a civilização.

          As doenças microbiológicas acompanham o homem desde a sua criação. Assim como o homem demorou 5 milhões de anos para se desenvolver a partir do seres primitivos unicelulares, muitos destes seres unicelulares seguiram caminho patogênico a outros animais primitivos  e ao próprio  homem. O estudo dos ossos do homem da pré- história, apontam que a expectativa de vida à época, era de aproximadamente 30 anos. Interessantemente, todos os relatos também apontam uma expectativa de vida maior para os homens e não para as mulheres, diferentemente dos dias atuais. Atribuiu-se esse achado à maternidade e à desnutrição crônica durante a vida das mulheres, já que o homem caçador tinha preferência na alimentação.
       
        O estudo dos fósseis mostra que o homem pré-histórico estava sujeito às doenças de modo semelhante ao que os homens modernos continuam enfrentando nos dias atuais. A fratura traumática foi uma das patologias mais frequentes. Em algumas delas foram confirmados sinais de infecção no osso traumatizado, a osteomielite, em tudo igual àquela encontrada nos hospitais de hoje. Também foi possível estabelecer a existência de doenças não traumáticas, como a denominada gota das cavernas, uma espécie de reumatismo do homem pré-histórico.  A tuberculose óssea na coluna vertebral foi documentada no esqueleto de homem do período Neolítico, em torno de 7.000 anos a.C. , constituindo, sem dúvida, o primeiro exemplar médico de tuberculose óssea.

          Perdura a questão da existência do ritual-mítico ligado à busca das causas e das soluções das doenças. Na gruta de Trois Fréres, na França, há uma pintura de um personagem em movimento de dança, datando de mais de 10.000 anos a.C., travestido de cervo, em atitude que sugere espécie de ritual médico-mítico, semelhante ao ritual da dança dos bisões, praticado pelos índios do norte dos Estados Unidos, durante cerimônia simbolizando o poder animal na cura das doenças.

             Durante o Neolítico, entre 10.000 a 7.000 anos a.C., o homem passou a incorporar métodos empíricos no tratamento das doenças. Estes métodos algumas vezes foram extremamente agressivos, como a trepanação do crânio, isto é, a abertura da cavidade craniana com o auxilio de instrumentos suficientemente fortes para cortar os ossos que protegem o cérebro. É facilmente comprovado que alguns destes homens pré-históricos que sofreram a craniotomia sobreviveram muito tempo à cirurgia, o suficiente para favorecer novo crescimento do osso cortado.

               Os primeiros seres humanos já no início do período Paleolítico encontram na magia as respostas para as suas dúvidas.  Os habitantes da região da serra de Atapuerca já depositavam os cadáveres em um lugar sagrado de sua caverna, em vez de abandoná-los no campo. Com o morto eram enterrados animais, comida, as armas e pertences pessoais. Pode-se deduzir, portanto, que acreditavam em uma vida após a morte e no sobrenatural em torno de 400 mil anos atrás. Exposições destas peças estiveram no Brasil em 2010.

            Na próxima semana falaremos mais especificamente sobre estas técnicas da época.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A Magna Carta

Há quase mil anos atrás, em 1066, após a conquista da Normandia e os desdobramentos históricos do séc. XII, o rei da Inglaterra havia se tornado um dos soberanos mais poderosos da Europa. Entretanto, uma extraordinária sequência de fracassos da parte do rei João, que subira ao trono inglês no início do século XIII, levou os barões ingleses a se revoltaram e começaram a impor limites ao poder real.

Foram três os seus grandes fracassos. A falta de respeito aos súditos, com guerras internas na Corte e tentativas de golpes, perdeu a Bretanha e envolveu-se numa controvérsia com a Igreja Católica acerca da indicação do Arcebispo da Cantuária.

Isto levou a tomada de Londres em 10 de junho de 1215, pelos barões, pressionando João a aceitar um documento conhecido como os "Artigos dos Barões". Em troca, os barões renovaram os seus juramentos de fidelidade ao rei. Este diploma formal, preparado em 15 de junho pela chancelaria para registrar o acordo entre o rei João e os barões, ficou conhecido como Magna Carta.  A cláusula mais importante para João, naquele momento, era a 61ª, conhecida como "cláusula de segurança" e a mais extensa do documento. Estabelecia um comitê de 25 barões com poderes para reformar qualquer decisão real, até mesmo pela força se necessário. Esta Carta nunca foi honrada pelo rei, que logo após a saída dos barões de Londres, mergulhou a Inglaterra em uma sangrenta guerra civil.

João faleceu em Newark, Inglaterra, em 18 de outubro de 1216, possivelmente envenenado por um abade irritado por ele ter tentado seduzir uma freira, sendo sepultado na catedral de Worcester. Subiu ao trono seu filho, menor de idade, Henrique III, em Outubro de 1216. A Magna Carta foi reformulada em nome de Henrique III, pela regência, e na sua maioridade, aos 18 anos, em 1225, Henrique republicou o documento mais uma vez, numa versão ainda mais curta, com apenas 37 artigos.

Em 1272, a última versão da Magna Carta já se tinha incorporado ao direito inglês, e após  cinquenta anos em vigor o Parlamento de Eduardo I, filho e sucessor de Henrique, republicou o documento uma última vez, em 12 de outubro de 1297, como parte de um estatuto conhecido como Confirmatio cartarum e que confirmava a versão curta de 1225.

Uma das cláusulas que maior importância é o artigo: "Nenhum homem livre será preso, aprisionado ou privado de uma propriedade, ou tornado fora-da-lei, ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra.”

Esta e outras cláusulas representavam um freio ao poder do rei e o primeiro capítulo de um longo processo que levou à monarquia constitucional e ao constitucionalismo. Algumas destas leis em vigor já estão absolutamente ultrapassadas, mas mantêm-se em vigor. Senão vejamos:
É proibido usar armadura durante as sessões do Parlamento. Mais sério ainda é morrer lá dentro, sob pena de ser preso. Já uma mulher grávida pode urinar no capacete de um policial em caso de necessidade. Em primeiro lugar, para os 4 mil entrevistados pela emissora UKTV Gold neste último julho, aparece a proibição de dar o último suspiro no Parlamento, com 27%. Colar um selo com a efígie de um monarca de cabeça para baixo, o que é considerado um "ato de traição", aparece bem atrás, com 7%, seguido de uma estranha determinação que permite que as mulheres trabalhem com os seios de fora, desde que sejam funcionárias de uma loja de peixes tropicais, em Liverpool (noroeste da Inglaterra).

Ainda nesse ritmo surreal, também foi bem cotada a obrigação imposta aos escoceses de abrir a porta de sua casa para quem estiver apertado para ir ao banheiro, assim como a permissão de matar um escocês na circunscrição da antiga cidade de York (norte da Inglaterra). Desde e somente se usar arco e flecha, única condição exigida pela lei. É crime estar bêbado enquanto se está responsável pela guarda de vacas, na Escócia. Também é proibido transportar cães ou cadáveres em táxis.

Um imigrante de origem turca foi condenado pela justiça britânica por ter matado um cisne branco, no Lago Hildenborough, a três horas da capital, em julho de 2014.  Isto porque, à época, somente os nobres  poderiam degustar tal iguaria. Hoje, esta lei perdura por proteção da espécie, ameaçada de extinção.  A lei perdura enquanto o motivo se modifica. E o xixi no capacete do policial?